2 de julho de 2026
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Literatura, Tecnologia e Inteligência Artificial. O livro como experiência

A Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco, em sua 21ª edição brasileira, que será realizada em novembro de 2026, terá como um de seus eixos temáticos “Literatura, Tecnologia e Inteligência Artificial”, propondo um amplo debate sobre os desafios e as oportunidades da transformação digital no universo da criação literária, da leitura, da produção editorial e da difusão do conhecimento.
Vivemos uma profunda revolução tecnológica impulsionada pela Inteligência Artificial. Como destaca o professor Silvio Meira, a Inteligência Artificial não deve ser compreendida apenas como um software ou uma ferramenta, mas como um novo agente cognitivo, uma extensão da própria inteligência humana. Nesse contexto, passam a coexistir e interagir três dimensões da inteligência: a individual, a social e a artificial, inaugurando novas formas de produzir conhecimento, criar e compartilhar cultura.
No campo da literatura, a Fliporto defende que a Inteligência Artificial seja utilizada como instrumento de apoio ao processo criativo, jamais como substituta da autoria humana. A criação literária pressupõe autonomia intelectual, sensibilidade, originalidade e responsabilidade autoral. Por essa razão, entendemos que as obras produzidas com auxílio de Inteligência Artificial devem informar de maneira transparente a utilização dessa tecnologia, preservando a confiança do leitor e a integridade do processo criativo. Essa compreensão dialoga com a evolução do Direito Autoral, que busca preservar a centralidade da intervenção humana na proteção das obras intelectuais.
O avanço tecnológico vem transformando profundamente a forma como escrevemos, lemos e consumimos informação. Os meios de comunicação tornam-se cada vez mais digitais, a circulação das notícias é instantânea e novas linguagens passam a disputar a atenção do público em um ambiente marcado pela velocidade e pela multiplicidade de plataformas.
Nesse cenário, destacam-se fenômenos contemporâneos como os booktokers e demais criadores de conteúdo literário nas redes sociais, que passaram a exercer significativa influência sobre hábitos de leitura, especialmente entre os jovens, contribuindo para o sucesso editorial de inúmeras obras e para a formação de novas comunidades de leitores.
Outro fenômeno característico do nosso tempo é a crescente valorização dos microtextos e das narrativas breves, compatíveis com a dinâmica das plataformas digitais. Entretanto, esse movimento não representa o enfraquecimento da literatura de maior fôlego, mas a ampliação das formas de expressão e de acesso ao texto literário.
Paradoxalmente, enquanto a tecnologia amplia o acesso ao conteúdo digital, observa-se um renovado interesse pelas livrarias físicas, pelos cafés literários, pelas feiras do livro, festas literárias e pelos espaços culturais voltados ao encontro entre autores e leitores. O livro deixa de ser apenas um objeto para tornar-se uma experiência cultural, afetiva e sensorial.
Caminhamos para uma nova era em que a literatura ultrapassa as páginas impressas e dialoga com diferentes linguagens. Ler um livro será uma experiência sensorial, podendo, também, assistir a um filme, visitar uma exposição, participar de experiências imersivas, interagir com recursos digitais ou explorar novas narrativas potencializadas pela tecnologia, como realidade aumentada, entre outras.
A Fliporto acredita que a Inteligência Artificial e as novas tecnologias não representam a crise do livro, mas uma oportunidade para ampliar seus horizontes. O livro permanece vivo, reinventando-se continuamente, estimulando o pensamento crítico, a criatividade e o diálogo entre tradição e inovação. É justamente esse encontro entre literatura, tecnologia e humanidade que a Fliporto literária pretende colocar no centro do debate em sua edição de 2026, que acontecerá no Centro do Recife, onde fica o Porto Digital.
É hora de criar e inovar.

Recife, 02 de julho de 2026.

Antônio Campos
Curador Geral da Fliporto.

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