Resiliência estratégica, o peso do petróleo e o novo tabuleiro do Oriente Médio, por Antônio Campos.
22 de junho de 2026
A paisagem de escombros e a retórica inflamada no Oriente Médio costumam induzir observadores apressados a conclusões lineares sobre vitória e derrota. No entanto, ao analisarmos a atual conjuntura, emerge uma realidade incômoda para o Ocidente: o Irã não perdeu a guerra. Embora tenha sofrido danos consideráveis e enfrentado uma pressão militar sem precedentes, o regime de Teerã não apenas evitou o colapso, como manobrou para manter sua relevância estratégica. O que se observa não é uma rendição, mas uma reorganização de forças em meio a um cenário de desgaste tático que não se traduziu em mudança de regime.
Antes do conflito, o regime dos aiatolás cambaleava sob o peso de uma crise de legitimidade interna. Estima-se que cerca de 70% da população iraniana se posicionava contra o governo, um descontentamento que explodiu em manifestações duramente reprimidas com extrema violência. A Guarda Revolucionária, pilar de sustentação do sistema, era o que mantinha a ordem sob tensão. Paradoxalmente, a guerra ofereceu ao governo o oxigênio político necessário ao criar um inimigo comum externo — Israel e os Estados Unidos —, permitindo que o discurso nacionalista sufocasse, momentaneamente, as vozes dissidentes que clamavam por reformas profundas.
No campo econômico, o Irã demonstrou possuir alavancas poderosas. O Estreito de Ormuz, gargalo vital para o comércio global, transformou o regime em uma espécie de “novo sultão”, cobrando um pedágio indireto das embarcações e elevar o preço do petróleo. Essa alta atingiu diretamente a economia americana, forçando Washington a uma postura mais pragmática. Nesse jogo, a China já era o maior parceiro comercial e principal comprador do petróleo iraniano, garantindo que o isolamento pretendido pelas sanções ocidentais nunca fosse absoluto. A complexidade regional ainda é acentuada pela curiosa aliança de conveniência entre o Irã xiita e o Hamas sunita, este último beneficiado por ajuda humanitária via Qatar que acabou financiando operações militares, mesmo que não intencionais.
O custo humano e militar da escalada é devastador. O ataque inicial do Hamas a Israel deixou um rastro de 1.200 mortos, mais de 2.000 feridos e mais de 250 sequestrados, conforme se assistiu o desenrolar pela imprensa. Em resposta, o Irã demonstrou sua capacidade de projeção de força ao lançar cerca de 800 mísseis contra o território israelense, resultando em 23 mortes, além de disparar mais de 2 mil foguetes contra países vizinhos. Contudo, a despeito da superioridade tecnológica israelense, o governo de Benjamin Netanyahu enfrenta sua própria crise. Antes da guerra, o país estava dividido por tentativas de reforma judicial que enfraqueceriam a Suprema Corte, gerando protestos massivos, ante a força da Suprema Corte Judaica nas elites e em Israel. Hoje, Netanyahu lida com 3 ações pesadas na Justiça e a perspectiva de derrota nas eleições de outubro/2026 onde as projeções indicam a vitória de uma coalizão de centro-direita mais moderada, que se chama Together.
Atualmente, Estados Unidos e Irã caminham para a finalização de um acordo complexo e repleto de desconfianças. O texto em negociação prevê a liberação de ativos descongelados e indenizações que podem somar 300 bilhões de dólares, além do alívio parcial de sanções. Em contrapartida, exige-se a entrega do urânio, matéria prima de bomba atómica, que segundo fontes chegariam a 11 toneladas de urânio enriquecido. A questão central, que tira o sono, é como garantir que a totalidade do material será de fato entregue e como impedir, de forma definitiva, que o Irã não desenvolva a bomba atômica. Sem garantias sólidas, o acordo corre o risco de ser apenas uma pausa para reorganização.
A paz no Oriente Médio permanece um objetivo urgente, mas de construção tortuosa. Se o acordo for selado, o Irã poderá emergir como uma força sombria e resiliente, capaz de influenciar a geopolítica regional por décadas. O custo da guerra já se provou insuportável para o turismo e para as economias locais, mas o custo de um Irã nuclear seria incomensurável. A estabilidade futura depende de uma política que reconheça que, embora o Irã não tenha vencido nos termos tradicionais, ele certamente não foi derrotado, e sua capacidade de resistência é o fator que definirá o equilíbrio de poder no século XXI, numa nova escalada de um novo império persa.
Recife, 22 de junho de 2026.
Antônio Campos
Advogado e escritor.


