Há muitos anos, o professor e pensador Roberto Mangabeira Unger lançou uma provocação que parecia ousada para alguns observadores: o Nordeste seria a China do Brasil.
A afirmação não era mero exercício retórico. Ela decorria da percepção de que a região reúne características singulares: vasta população, grande mercado consumidor, abundância de recursos naturais, localização estratégica voltada para o Atlântico e capacidade de formar importantes arranjos produtivos.
Os números mais recentes parecem dar razão ao diagnóstico. Em diversos momentos dos últimos anos, o Nordeste apresentou taxas de crescimento superiores à média nacional, atraindo investimentos industriais, energéticos, logísticos e tecnológicos. O que antes era visto apenas como uma região receptora de políticas compensatórias passa a se consolidar como um dos principais motores do desenvolvimento brasileiro.
Pernambuco segue recebendo investimentos relevantes em infraestrutura, energia e tecnologia. Na Bahia, a instalação da BYD representa um dos maiores investimentos industriais recentes do país, com potencial para transformar a região em um polo da indústria automobilística elétrica da América Latina. O Ceará, por sua vez, tem atraído grandes projetos ligados à economia digital, centros de dados, telecomunicações e energias renováveis.
Não por acaso, muitos desses investimentos possuem relação direta ou indireta com a crescente presença econômica chinesa no Brasil.
O Brasil foi primeiro oriental para depois ser ocidental
A aproximação entre Nordeste e China não é apenas econômica. Ela possui raízes históricas e culturais profundas.
Gilberto Freyre, o mestre de Apipucos, observava em sua obra China Tropical que o Brasil conheceu influências orientais antes mesmo de consolidar plenamente sua identidade ocidental. Segundo Freyre, os portugueses que chegaram ao Brasil já vinham profundamente marcados por séculos de contato com a Ásia.
Foram trazidos hábitos alimentares, tecidos, porcelanas, formas de vestir, técnicas agrícolas e costumes que possuíam forte influência oriental. Em certo sentido, o Brasil teria experimentado uma primeira fase de orientalização antes da reocidentalização intensificada com a chegada da Corte Portuguesa em 1808.
Essa observação ajuda a compreender por que o diálogo contemporâneo entre Brasil e China encontra terreno fértil, especialmente no Nordeste, região historicamente aberta às influências marítimas, comerciais e culturais vindas de diferentes partes do mundo.
O Instituto Confúcio em Pernambuco
Nesse contexto de aproximação entre Pernambuco e China, merece destaque a implantação do Instituto Confúcio no Estado.
Tive a oportunidade de colaborar, juntamente com o advogado Durval Noronha Goyos Júnior, para a chegada do primeiro Instituto Confúcio do Nordeste, nucleado na Universidade de Pernambuco (UPE), durante o governo Eduardo Campos.
O Instituto desempenha papel relevante na promoção do intercâmbio cultural e acadêmico, oferecendo cursos de mandarim, capacitação voltada ao comércio internacional, atividades culturais e programas de cooperação educacional.
Em um mundo cada vez mais integrado, conhecer a língua e a cultura chinesas deixou de ser mera curiosidade intelectual para tornar-se uma vantagem estratégica.
Os investimentos chineses podem ajudar a destravar a Transnordestina
Uma das discussões que merece ser aprofundada diz respeito ao possível interesse chinês na implementação da Ferrovia Transnordestina, no trecho entre Salgueiro e o Porto de Suape.
A experiência internacional demonstra que a China desenvolveu uma das mais sofisticadas malhas ferroviárias do planeta. Da mesma forma, a Índia vem realizando investimentos maciços em infraestrutura ferroviária.
Para Pernambuco, a conclusão da Transnordestina representa muito mais do que uma obra de engenharia. Trata-se de um instrumento de integração regional capaz de reduzir custos logísticos, aumentar a competitividade das exportações nordestinas e consolidar Suape como um dos principais hubs portuários do Atlântico Sul.
Caso haja interesse de investidores internacionais, inclusive chineses, o desafio será construir modelos de parceria transparentes, equilibrados e compatíveis com os interesses estratégicos brasileiros.
Os investimentos chineses e o Nordeste
Vivemos em um mundo cada vez mais multipolar. A ascensão da China transformou profundamente a geopolítica global, criando novas oportunidades para países e regiões que saibam formular projetos consistentes de desenvolvimento.
O Nordeste brasileiro surge como um dos territórios mais promissores para essa nova fase. Sua localização geográfica privilegiada, sua capacidade produtiva crescente, seus portos, suas energias renováveis e seu potencial humano fazem da região uma porta natural para investimentos internacionais.
Num país cuja capacidade de investimento público é frequentemente limitada, o capital estrangeiro pode desempenhar papel decisivo na aceleração do desenvolvimento. Contudo, a questão central não é apenas receber investimentos, mas construir parcerias equilibradas, sustentáveis e vantajosas para todas as partes envolvidas.
Se o século XXI será marcado pela ascensão da Ásia, o Nordeste brasileiro possui todas as condições para transformar-se em sua principal ponte de conexão com o Brasil.
Recife/Olinda, 18 de junho de 2026
Antônio Campos
Advogado e escritor


