A ORLA
O Recife investiu centenas de milhões de reais na requalificação de sua orla, mas uma pergunta permanece sem resposta: e a segurança no mar?
Os dois recentes ataques de tubarão, em menos de 24 horas, voltaram a expor uma realidade incômoda. Enquanto a infraestrutura da orla evoluiu, as ações de prevenção continuam praticamente as mesmas de décadas atrás. Em muitos pontos, a principal medida visível ainda são as placas de advertência alertando para o risco de ataques. Ou a justificativa plausível é a fase da lua e a água turva que leva tubarões famintos, em ambiente de desequilíbrio ecológico, em fazer ataques em águas rasas? Claro que é necessário enfrentar o problema.
É pouco. Muito pouco.
Em uma das áreas costeiras mais conhecidas do mundo pela incidência de ataques de tubarão, limitar a política de prevenção a placas fixadas na areia é admitir que o poder público se acomodou diante do problema.
A Prefeitura do Recife costuma destacar os investimentos realizados na orla, tentando jogar a competência para o Estado. São obras importantes e necessárias. Mas uma cidade litorânea não pode pensar apenas na faixa de areia e esquecer o mar.
A verdadeira modernização da orla só estará completa quando a segurança marítima receber a mesma atenção dedicada ao paisagismo, ao concreto e à iluminação.
O EXEMPLO DA AUSTRÁLIA
Na Austrália, país que também convive com grandes populações de tubarões e recebe milhões de banhistas todos os anos, a lógica é diferente. Os estados costeiros assumem a responsabilidade pela gestão do risco. Há monitoramento por drones, patrulhamento aéreo, sistemas de alerta em tempo real, aplicativos para celulares, torres de observação, comunicação direta com salva-vidas e fechamento imediato de áreas consideradas perigosas.
Em diversas praias australianas, quando um tubarão é identificado próximo à área de banho, sirenes e avisos sonoros são acionados. Em alguns locais, mensagens são enviadas diretamente para aplicativos utilizados por surfistas e frequentadores das praias. Helicópteros e drones realizam monitoramento preventivo durante períodos de maior movimento.
A tecnologia existe. O conhecimento científico também.
Outro aspecto na Austrália, que é pouco divulgado, ante a controvérsia ambiental, é a alimentação de tubarões, em plataformas, em alto mar, em uma linha que leva os mesmos para longe da costa, com restos de animais, de restaurantes, frigoríficos, no sentido de que tubarão alimentado dificilmente ataca, somente quando atacado.
FALTA DECISÃO POLÍTICA E AÇÃO
O que falta é decisão política.
Por que Recife não dispõe de um sistema de alerta sonoro ao longo da orla? Por que não existem drones realizando monitoramento permanente nos trechos mais sensíveis? Por que turistas e moradores não recebem informações em tempo real sobre condições de risco? Por que não há painéis eletrônicos indicando alertas atualizados para os banhistas?
São perguntas legítimas diante de um problema conhecido há mais de trinta anos.
A situação se torna ainda mais preocupante porque cada novo ataque ultrapassa as fronteiras de Pernambuco, repercutindo internacionalmente. As imagens circulam pelo Brasil e pelo mundo em poucos minutos. O prejuízo não é apenas humano, embora este seja o mais grave. Há também danos à imagem turística da cidade, que volta a ser associada internacionalmente aos ataques de tubarão.
Não se trata de demonizar o animal. Tubarões fazem parte do ecossistema marinho e desempenham papel fundamental para o equilíbrio ambiental, que está desequilibrado. O desafio é reduzir os riscos para a população utilizando ciência, tecnologia e gestão pública eficiente.
ATÉ QUANDO?
Até quando o Recife continuará convivendo com uma contradição incômoda: uma das orlas urbanas mais bonitas do país e um dos mais conhecidos problemas de segurança costeira do mundo.
As placas estão lá. Os tubarões também.
Certamente, as autoridades jogam no envelhecimento da notícia, mas os tubarões e a marca do Recife como campeão em ataques permanecem, sendo algo que prejudica o nosso turismo e coloca em risco vidas.
O que falta é uma política pública à altura do desafio.
Recife não pode e não deve ficar conhecido como o Recife dos Tubarões. Políticas Públicas e investimentos a altura já!
Existem exemplos exitosos a seguir.
Recife/Olinda, 02 de junho de 2026
Antônio Campos
Editorial do Jornal Correio de Pernambuco
Dyogo Bastos
Jornalista
