
Por Antônio Campos
A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) chega a mais uma edição reafirmando sua importância como um dos principais encontros literários do país. Como coordenador da Fliporto, faço questão de parabenizar a organização pela qualidade da programação oficial, que, ano após ano, mantém o compromisso com a literatura, o pensamento crítico e o debate de ideias.
A Fliporto, que completa 21 anos de história, nasceu logo em seguida à Flip. Desde o início, acompanhamos atentamente sua trajetória. Sempre observamos Paraty como um espaço de experimentação, inovação e reinvenção do fazer literário. Há muito o que aprender com uma festa que conseguiu consolidar sua marca no cenário cultural brasileiro.
Mas, nesta edição, um fenômeno chama mais atenção do que a própria programação oficial: as 42 casas paralelas.
O que antes era visto como programação alternativa tornou-se o centro da efervescência cultural da cidade. Editoras, coletivos, institutos, fundações, universidades e movimentos literários ocuparam Paraty com debates, lançamentos, encontros e experiências que ampliam o alcance da literatura muito além da agenda oficial.
O paralelo deixou de ser periférico. Tornou-se central.
Talvez este seja o maior legado da Flip contemporânea: compreender que a literatura não cabe mais em um único palco. Ela se espalha pelas ruas, pelos casarões, pelas praças e pelos encontros espontâneos. A pluralidade venceu o modelo único.
É curioso perceber que muitos visitantes organizam suas agendas priorizando justamente essas casas paralelas. Em vários momentos, elas concentram autores, público e discussões que repercutem tanto quanto, ou até mais, do que a programação principal.
A Flip oficial continua sendo essencial. É ela que ancora o evento, lhe confere identidade e prestígio. Mas seria um equívoco ignorar que a chamada programação paralela já não vive à sua sombra.
As 42 casas paralelas, na prática, transformaram-se na Flip real. São elas que ampliam fronteiras, democratizam vozes e mostram que a literatura brasileira é múltipla, diversa e impossível de ser contida em uma única curadoria.
Essa é uma reflexão importante para todos os festivais literários, inclusive para a Fliporto. Os grandes eventos do futuro talvez não sejam aqueles que concentram tudo em um único núcleo, mas os que conseguem estimular uma verdadeira rede de iniciativas independentes, conectadas por um mesmo propósito: fazer da literatura um espaço livre, aberto e vivo.
Quando o paralelo se torna central, todos ganham. Ganha o leitor. Ganha o escritor. Ganha a cidade. E, principalmente, ganha a própria literatura.