
A eleição presidencial de 2026 caminha para assumir contornos incomuns. Mais do que uma disputa entre governo e oposição, a campanha tende a ser estruturada em torno de duas narrativas distintas. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca transformar o embate com Donald Trump em uma defesa da soberania nacional. De outro, o senador Flávio Bolsonaro permanece fortemente vinculado aos desdobramentos do bolsonarismo, às disputas envolvendo sua família e ao confronto permanente com o Supremo Tribunal Federal.
Lula demonstra, mais uma vez, a capacidade de reposicionar o debate político mesmo enfrentando desgaste administrativo, desafios fiscais, críticas à condução da economia e índices relevantes de rejeição. O conflito comercial e político com os Estados Unidos oferece ao presidente a oportunidade de deslocar o foco da campanha dos problemas internos para uma agenda de afirmação nacional.
As tarifas impostas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros e as críticas dirigidas às instituições brasileiras criaram um ambiente favorável para que Lula se apresente como defensor da soberania do país diante de pressões externas. A estratégia ganhou força nas últimas semanas e pesquisas recentes indicam que esse discurso tem encontrado ressonância junto a parte do eleitorado, especialmente entre os indecisos.
Ao enquadrar a disputa nesse campo simbólico, Lula procura transformar uma eleição que poderia ser apenas entre PT e PL em um debate mais amplo sobre autonomia nacional e interferência estrangeira. Trata-se de uma estratégia recorrente na política: governos que enfrentam dificuldades domésticas frequentemente buscam fortalecer sua posição por meio da defesa dos interesses nacionais diante de ameaças externas.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro enfrenta o desafio de construir uma identidade própria. Sua pré-candidatura continua associada ao legado de Jair Bolsonaro, aos episódios envolvendo Michelle Bolsonaro, às repercussões das tratativas atribuídas a Daniel Vorcaro e, sobretudo, ao conflito permanente entre o bolsonarismo e o Supremo Tribunal Federal. Esses temas mantêm mobilizada sua base mais fiel, mas ainda levantam dúvidas sobre sua capacidade de ampliar apoio entre eleitores moderados.
O desafio do senador vai além da defesa do legado familiar. Uma candidatura presidencial exige a apresentação de um projeto nacional consistente, com propostas para crescimento econômico, segurança pública, saúde, educação, responsabilidade fiscal, inovação e inserção internacional. Uma campanha sustentada predominantemente pela crítica ao Supremo ou pela defesa do ex-presidente tende a encontrar dificuldades para ampliar seu alcance eleitoral.
O confronto permanente mobiliza militâncias e gera forte repercussão nas redes sociais, mas nem sempre se traduz em maioria nas urnas. Para vencer uma eleição presidencial, será necessário dialogar também com o eleitor menos ideológico, preocupado sobretudo com emprego, renda, inflação, serviços públicos e estabilidade institucional.
Também é preciso relativizar a percepção de que o Brasil permanece dividido exclusivamente entre lulismo e bolsonarismo. Embora a polarização continue organizando boa parte do debate político, pesquisas apontam a existência de um contingente expressivo de eleitores que manifesta insatisfação com ambos os polos e permanece aberto ao surgimento de alternativas competitivas.
Nesse contexto, o desempenho inicial de Renan Santos, ainda que modesto nas pesquisas, revela que existe espaço para candidaturas que busquem romper a lógica da polarização. Contudo, transformar esse potencial em viabilidade eleitoral exige muito mais do que um discurso renovador. São necessários estrutura partidária, alianças regionais, tempo de televisão, recursos financeiros e uma narrativa capaz de dialogar com diferentes segmentos do eleitorado.
No momento, Lula mantém vantagem nas principais simulações eleitorais diante de Flávio Bolsonaro, embora a campanha permaneça aberta e sujeita aos impactos da economia, da evolução das relações internacionais e de eventuais fatos políticos relevantes.
Caso o cenário atual seja mantido, o presidente chega à reta final da disputa em posição favorável. Não necessariamente porque tenha eliminado as fragilidades de seu governo, mas porque conseguiu impor um tema que amplia sua capacidade de diálogo para além de sua base tradicional.
Em contrapartida, Flávio Bolsonaro ainda busca romper os limites de uma campanha fortemente ancorada na defesa do bolsonarismo. Enquanto Lula procura nacionalizar a disputa por meio da narrativa da soberania, o senador continua concentrado em temas que mobilizam seu eleitorado mais fiel, mas cujo potencial de expansão ainda permanece uma incógnita.
A eleição de 2026 provavelmente será vencida por quem conseguir ultrapassar sua própria bolha política. Até aqui, Lula tem demonstrado maior capacidade de alterar o eixo do debate público. A oposição, por sua vez, ainda enfrenta o desafio de apresentar uma agenda nacional capaz de ir além da resistência ao governo e dialogar com o eleitorado que decidirá a eleição.
16 de julho de 2026
Antônio Campos
Advogado e escritor