O Recife nasceu e cresceu debruçado sobre seus rios. O Capibaribe não é apenas um curso d’água que atravessa a cidade. É parte da identidade, da história e da própria razão de existir da capital pernambucana. Por isso, uma cidade que pretende se projetar para o futuro não pode continuar tratando seu principal rio como um elemento secundário da paisagem urbana.
Falta transformar em prioridade uma ideia que poderia mudar a relação do Recife com o Capibaribe: a implantação de um sistema de navegação fluvial integrado à cidade.
O projeto do Capibaribe navegável representava mais do que uma obra de infraestrutura. Poderia significar uma mudança de paradigma para o Recife. O rio poderia ser utilizado para transporte de passageiros, turismo, lazer e integração entre diferentes áreas da cidade, reduzindo a pressão sobre o sistema viário e devolvendo ao Capibaribe uma função que ele já teve no passado.
O abandono ou a perda de prioridade desse projeto revela uma dificuldade histórica do poder público: pensar a cidade para além do ciclo político imediato.
Recife tem uma vocação natural para o transporte hidroviário. Em uma cidade marcada por rios, pontes, ilhas e áreas densamente ocupadas, utilizar a água como parte da matriz de mobilidade deveria ser uma consequência lógica do planejamento urbano.
Não se trata de defender uma obra faraônica ou de ignorar os desafios técnicos, ambientais e financeiros. Um projeto dessa dimensão exige estudos de viabilidade, dragagem, adequação de margens, segurança, acessibilidade, integração tarifária e conexão com outros modais. Mas justamente por isso ele deveria ter sido tratado como política de Estado, com planejamento de longo prazo, metas e transparência.
O que não podemos aceitar é que ideias capazes de transformar a cidade sejam lançadas, debatidas e, depois, desapareçam da agenda pública.
Enquanto outras cidades do mundo recuperam seus rios e os transformam em espaços de convivência, mobilidade e desenvolvimento econômico, Recife ainda olha para o Capibaribe muitas vezes como uma barreira a ser atravessada, e não como um patrimônio a ser incorporado à vida urbana.
O rio precisa voltar a ser vivido.
Imagine o Recife com embarcações transportando trabalhadores e estudantes, turistas conhecendo a cidade pelo Capibaribe, restaurantes e espaços culturais voltados para suas margens, parques conectados ao sistema de transporte e uma população que pudesse olhar para o rio não apenas das pontes, mas também de dentro dele.
Esse Recife é possível.
Mas exige visão de futuro.
Essa é uma das lacunas que ficam de sua passagem pela Prefeitura do Recife.
Uma cidade não se moderniza apenas com novas avenidas, prédios, parques ou intervenções pontuais. Modernizar também é recuperar aquilo que faz parte de sua essência.
O Recife ainda precisa reencontrar o seu rio.
Porque enquanto o Capibaribe permanecer subutilizado, degradado em determinados trechos e distante da rotina de mobilidade dos recifenses, a cidade continuará incompleta.
O Recife nasceu do Capibaribe. Agora precisa aprender novamente a navegar com ele.
Antônio Campos
Advogado e escritor
07.09.2026



